Alimentação a Partir dos 6 Meses de Vida da Criança em Aleitamento

Alimentação a Partir dos 6 Meses de Vida da Criança

em Aleitamento Materno

 

autores:

Virgínia Resende Silva Weffort

Roseli Oselka Saccardo Sarni

Fernanda Luisa Ceragioli Oliveira

Hélio Fernandes Rocha

 

 

A partir do sexto mês de vida, deve-se introduzir a alimentação complementar,

mantendo-se o aleitamento materno até os 2 anos de idade ou mais. Retardar a introdução

de alimentos complementares não protege a criança do desenvolvimento

de doenças alérgicas, podendo mesmo aumentar este risco. A introdução de grande

variedade de alimentos sólidos por volta de 3 a 4 meses de vida parece elevar o risco

de eczema atópico e de alergia alimentar.

As frutas

in natura

, preferencialmente sob a forma de papa, devem ser oferecidas

nesta idade, amassadas, sempre em colheradas, ou espremidas. O tipo de fruta a ser

oferecido terá de respeitar características regionais, custo, estação do ano e presença

de fi bras, lembrando que nenhuma fruta é contraindicada (sobre alimentos regionais,

veja o site www.saude.gov.br/nutricao).

Os sucos naturais devem ser evitados, mas se forem administrados que sejam dados

no copo, de preferência após as refeições principais, e não em substituição a estas,

em dose máxima de 100 mL/dia, com a fi nalidade de melhorar a absorção do ferro não

heme presente nos alimentos como feijão e folhas verde-escuras.

A primeira papa principal deve ser oferecida a partir do sexto mês, no horário de

almoço ou jantar, conforme o horário que a família estiver reunida, completando-se a

refeição com o leite materno até que a criança se mostre saciada apenas com a papa.

A segunda papa principal será, oferecida a partir do sétimo mês de vida. Os grupos

de alimentos e o número de porções/dia para crianças de 6 a 11 meses, segundo a

pirâmide de alimentos (Anexo 4), estão expressos nos Anexos 5 e 6.

Não há restrições à introdução concomitante de alimentos diferentes, mas a refeição

deve conter pelo menos um alimento de cada um dos seguintes grupos:

• Cereais ou tubérculos.

• Leguminosas.

• Carne (vaca, ave, suína, peixe ou vísceras, em especial o fígado) ou ovo; lembrar

que as vísceras, quando utilizadas, deverão sofrer cozimento atento e demorado

a fi m de evitar possíveis contaminações pela manipulação em abatedouros, com

 

grande incidência de salmoneloses.

 

• Hortaliças (verduras e legumes).

O óleo vegetal (preferencialmente de soja ou canola) deve ser usado na proporção

de 3 a 3,5 mL por 100 mL ou 100 g da preparação pronta. Não refogar a papa com

óleo. Não é permitido o uso de caldos ou tabletes de carne industrializados, legumes

ou quaisquer condimentos industrializados nas preparações.

A papa deve ser amassada, sem peneirar ou liquidifi car, para que sejam aproveitadas

as fi bras dos alimentos e fi que na consistência de purê. A carne, na quantidade

de 50 a 70 g/dia (para duas papas), não deve ser retirada após o cozimento, mas sim

picada, tamisada (cozida e amassada com as mãos) ou desfi ada, e é fundamental que

seja oferecida à criança (procedimento fundamental para garantir a oferta adequada

de ferro e zinco). Aos 6 meses, os dentes estão próximos às gengivas, o que as torna

endurecidas, de tal forma que auxiliam a triturar os alimentos.

A consistência dos alimentos deve ser progressivamente elevada, respeitando-se o

desenvolvimento da criança e evitando-se, dessa forma, a administração de alimentos

muito diluídos (com baixa densidade energética) para propiciar a oferta calórica

adequada. Além disso, as crianças que não recebem alimentos em pedaços até os 10

meses apresentam, posteriormente, maior difi culdade de aceitação de alimentos sólidos.

Dos 6 aos 11 meses, a criança amamentada estará recebendo três refeições com

alimentos complementares ao dia (duas papas principais e uma de frutas). A criança

que não estiver em aleitamento materno corre maior risco nutricional, portanto é

recomendado que receba com maior frequência alimentos complementares, com cinco

refeições (duas papas principais e três de leite, além das frutas).

Por volta dos 8 a 9 meses a criança pode começar a receber a alimentação da família,

na dependência do desenvolvimento neuropsicomotor. Nos primeiros dias, é normal

a criança derramar ou cuspir o alimento, portanto tal fato não deve ser interpretado

como rejeição ao alimento.

Recomenda-se iniciar com pequenas quantidades do alimento, entre 1 e 2 colheres

de chá, colocando-se o alimento na ponta da colher e aumentando o volume

conforme a aceitação da criança. Orientar a família de que a criança tem capacidade

de autorregular sua ingestão alimentar e os pais são “modelos” para ela. Portanto,

o hábito alimentar e o estilo de vida saudáveis devem ser praticados por todos os

membros da família.

A partir dos 12 meses, acrescentar às três refeições mais dois lanches ao dia, com

fruta ou leite. Oferecer frutas como sobremesa é importante, após as refeições principais,

com a fi nalidade de melhorar a absorção do ferro não heme presente nos alimentos

como feijão e folhas verde-escuras.

Deve-se evitar alimentos industrializados pré-prontos, refrigerantes, café, chás e

embutidos, entre outros. A oferta de água de coco (como substituta da água) também

não é aconselhável pelo baixo valor calórico e por conter sódio e potássio. No primeiro

ano de vida não se recomenda o uso de mel. Nessa faixa etária, os esporos do Clostridium botulinum, capazes de produzir toxinas na luz intestinal, podem causar botulismo.

 

Planejamento da papa

 

Entre o sexto e o sétimo mês, os seguintes grupos alimentares devem ser introduzidos

na papa principal: cereal ou tubérculo, alimento proteico de origem animal, leguminosas

e hortaliças.

Desde a primeira papa, todos os grupos alimentares devem estar presentes.

O tamanho dessas porções segue a proposta da pirâmide de alimentos (Anexo 4).

Tabela 1. Componentes das misturas

Cereal ou tubérculo Leguminosa Proteína animal Hortaliças

Arroz

Milho

Macarrão

Batata

Mandioca

Inhame

Cará

Feijão

Soja

Ervilha

Lentilhas

Grão-de-bico

Carne bovina

Vísceras

Carne de aves

Carne suína

Carne de peixe

Ovos

Verduras

Legumes

Algumas defi nições podem auxiliar na orientação aos pais:

• Legumes são vegetais cuja parte comestível não são folhas. Por exemplo: cenoura,

beterraba, abóbora, chuchu, vagem, berinjela e pimentão.

• Verduras são vegetais cuja parte comestível são as folhas. Por exemplo: agrião,

alface, taioba, espinafre, serralha, beldroega, acelga, almeirão, couve, repolho,

rúcula e escarola.

• Tubérculos são caules curtos e grossos, ricos em carboidratos. Por exemplo: batata,

mandioca (macaxeira ou aipim), cará e inhame.

• Cereais são sementes ou grãos comestíveis das gramíneas, como trigo, arroz e

milho, além da aveia, cevada e centeio. Nos grãos de cereais podemos encontrar

nutrientes como: carboidratos, proteínas, gorduras, sais minerais, vitaminas,

enzimas e outras substâncias

Nas primeiras papas, pode-se misturar os componentes para facilitar a aceitação do

lactente. À medida que ele vai aceitando a alimentação pastosa, sugere-se separar os

alimentos, amassá-los com o garfo e oferecê-los individualmente para que o lactente

aprenda a desenvolver preferências e paladares diversos.

Exemplos de papas são apresentados no Anexo 7.

Não se deve acrescentar açúcar ou leite às papas (na tentativa de melhorar a aceitação),

pois isso pode prejudicar a adaptação da criança às modifi cações de sabor e consistência

das refeições. A exposição frequente a um determinado alimento e a criatividade

na preparação e na apresentação facilitam a sua aceitação. Em média, são necessárias

de 8 a 15 exposições ao alimento para que ele seja plenamente aceito pela criança.

O ovo, além de excelente fonte proteica e de cofatores de alta efi ciência nutricional,

tem baixo custo e sua adoção deve ser incentivada na alimentação complementar. Para

garantir a não contaminação por bactérias enteropatogênicas próprias de sua casca,

o ovo deve sempre ser consumido com a clara e a gema cozidas. Sempre que possível,

diversifi car o tipo de proteína animal consumido ao longo da semana, proporcionando

maior variedade de nutrientes e micronutrientes essenciais para o crescimento e o

desenvolvimento nesta fase, como ferro e zinco.

 

Tabela 2. Esquema de introdução dos alimentos complementares

Faixa etária Tipo de alimento

Até o 6º mês Leite materno exclusivo

Do 6º ao 24º mês Leite materno complementado

No 6º mês

Frutas (amassadas ou raspadas)

Primeira papa da refeição principal

(com ovo inteiro cozido e peixe)

Do 7º ao 8º mês Segunda papa principal

Do 9º ao 11º mês

Gradativamente, passar para a refeição da

família com ajuste da consistência

No 12º mês Comida da família (observar adequação)

A introdução de alimentos novos e de consistência diferente da amamentação é

um momento de grande aprendizado para o lactente, mas também, como toda novidade,

é um momento de crise. A amamentação tem o poder de aliar alimentação a

afeto, e esta passagem deve ter também afeto na condução. O uso da colher deve ser

iniciado com o lactente no colo da mãe ou de quem der as colheradas. A paciência e

a suavidade, assim como palavras tranquilizadoras e manifestações positivas, devem

completar os esforços de quem ajuda nesta iniciação.

A maneira como será conduzida a mudança do regime de aleitamento materno

exclusivo para essa multiplicidade de opções poderá determinar, a curto, médio ou

longo prazo, atitudes favoráveis ou não em relação ao hábito e ao comportamento

alimentar.

O respeito ao tempo de adaptação aos novos alimentos, assim como às preferências

e às novas quantidades de comida, modifi cará a ação destes alimentos em mecanismos

reguladores do apetite e da saciedade. Assim, deve-se respeitar a autorregulação do

lactente, não interferindo na sua decisão de não querer mais o alimento.

As evidências sugerem que, embora a ingestão de porções em refeições individualizadas

possa ser um tanto quanto irregular, o consumo energético em 24 horas

costuma ser adequado. Na nossa cultura, comer bem é comer muito, além da falsa

ideia de que comendo muito se fi ca mais resistente às doenças. Atitudes excessivamente

controladoras e impositivas podem induzir ao hábito de consumir porções

mais volumosas do que o necessário e à preferência por alimentos hipercalóricos.

Esta condição é apontada como uma das causas preocupantes do aumento das taxas

de obesidade infantil que se tem observado nos últimos anos, além de também ser

uma das causas de inapetência na infância.

A alimentação complementar, embora com horários mais regulares que os da

amamentação, deve permitir pequena liberdade inicial quanto a ofertas e horários,

permitindo também a adaptação do mecanismo fi siológico de regulação da ingestão.

Mantém-se, assim, a percepção correta das sensações de fome e saciedade, característica

imprescindível para a nutrição adequada, sem excessos ou carências.

O Anexo 8 ilustra o esquema de alimentação para uma criança de 8 meses em regime

de aleitamento materno.

 

Do Manual de Orientação

Departamento de Nutrologia

 

Sociedade Brasileira de Pediatria

site: http://www.sbp.com.br/pdfs/14617a-PDManualNutrologia-Alimentacao.pdf